O Brasil e a sua tradição na criação de História em Quadrinhos

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O nascimento dos super-heróis brasileiros começou precisamente no dia 24 de outubro de 1954, não nas bancas de jornal, mas na televisão, com a estreia do seriado Capitão 7 pela TV Record. O diretor do programa, Rubem Biáfora (1922-1996), e o ator principal, Ayres Campos (1923-2003), se inspiraram no norte-americano Superman para compor o visual do personagem: capa vermelha, malha azul e um grande número 7 no peito. O 7 era uma referência ao canal de transmissão da emissora em São Paulo. Capitão 7 é na verdade o cientista químico Carlos, que ganhou seus espantosos poderes ainda criança, ao ser abduzido para outro planeta por um alienígena. Ele era mais forte e inteligente que qualquer outro ser humano. De volta à Terra, já adulto, decide usar suas novas habilidades para combater o crime.

O Clube do Capitão 7

Fonte de imagem: As Aventuras do Cardeal

Fonte de imagem: As Aventuras do Cardeal

Apesar do enredo simples, o seriado fez enorme sucesso entre o público infantil, o que levou o leite Vigor, patrocinador do programa, a criar o “Clube do Capitão 7”. Para ganhar o diploma e carteirinha, bastava o fã juntar dez tampinhas do leite (na época, a bebida era vendida em garrafas de vidro). Capitão 7 também virou fantasia de festa para crianças, estampou camisetas e, o principal, ganhou uma revista em quadrinhos, publicada pela editora Continental. O gibi Capitão 7 nº 1 chegou às bancas em novembro de 1959, editado pelo luso-brasileiro Jayme Cortez e com tiragem de mais de 40 mil exemplares. Essa marca se manteve durante os primeiros meses, resultando num sucesso editorial sem precedentes em se tratando de um título genuinamente brasileiro. No departamento criativo ocorria um revezamento entre vários autores. Os nomes de maior destaque foram Júlio Shimamoto, Getúlio Delphim e Juarez Odilon.

O mutante Capitão Estrela

Fonte de imagem: Guia dos Quadrinhos

Fonte de imagem: Guia dos Quadrinhos

 

Em 1961, a TV Tupi do Rio de Janeiro começou a transmitir as aventuras do Capitão Estrela, programa patrocinado pela fábrica
de brinquedos Estrela e protagonizado pelo ator Dary Reis. Capitão Estrela era um mutante superforte que havia lutado na Segunda
Guerra Mundial. Ganhou também um gibi produzido pela mesma equipe da Continental. Com o passar do tempo, os seriados foram perdendo apelo, o que se refletiu nas vendas das revistas. Assim, o gibi do Capitão Estrela foi cancelado logo na oitava edição, enquanto o Capitão 7, por ser mais antigo, conseguiu atingir 54 números lançados, sendo cancelado em 1964.

Raio Negro, o herói pop

Fonte de imagem: Orgulho Nerd

Fonte de imagem: Orgulho Nerd

No ano seguinte, o roteirista e desenhista Gedeone Malagola começou a fazer um burburinho discreto entre os leitores da GEP (Gráfica Editora Penteado) com o seu Raio Negro, um super-herói calcado no Lanterna Verde da DC Comics (criação de John Broome), cujas histórias tinham um visual bacana, tomado emprestado do movimento artístico pop art. Em suas páginas ainda aparecia o Homem-Lua, um vigilante que usava um globo de vidro na cabeça – outra criação exótica de Malagola. Contudo, sem patrocínio adequado ou exposição na grande mídia (como o Capitão 7), Raio Negro logo também seria descontinuado.

O cenário para os super-heróis brasileiros ficou efervescente a partir de 1967, quando a EBAL (Editora Brasil-América), do Rio de Janeiro, trouxe para o Brasil os super-heróis da Marvel Comics revitalizados por Stan Lee. Hulk, Thor, Namor, Capitão América e Homem de Ferro eram um tremendo sucesso, principalmente por causa dos desenhos animados transmitidos pela televisão, o que inspirou as editoras daqui a criar seus próprios super-heróis. A Edrel lançou Fikom, de Fernando Ikoma, um personagem onírico que vivia aventuras no mundo dos sonhos. Eugenio Colonnese apresentou aos leitores o misterioso Mylar e o aventureiro Superargo pela editora Taika. Já o roteirista Luis Meri e o desenhista Oswaldo

Talo criaram Fantastic, “O Herói Bossa-Nova”(referência ao estilo musical brasileiro). Fantastic combatia os malfeitores na capital Brasília e usava uma espécie de armadura no melhor estilo Homem de Ferro. Por sua vez, Rivaldo Macedo, diretor de arte da Graúna, uma editora de São Paulo, Anísio Torres e os desenhistas Rubens Cordeiro e Benedito Silva se debruçaram na prancheta para desenvolver a criação
de um herói juvenil inspirado em Roberto Carlos, na Jovem Guarda e em The Archie (uma série americana que também virou desenho animado). A ideia era explorar todo aquele ambiente musical, seus manerismos e alegria contagiante. Foi assim que surgiu o cantor Renato Fortuna, o super-herói Golden Guitar, em 1967. Sua arma era a Guitarra Dourada, que disparava dardos tranquilizantes, gás lacrimogêneo e outras maluquices.

Rubens Cordeiro também esteve envolvido na gênese e produção de outros dois super-heróis da Graúna lançados na sequência: Místyko e Homem-Fera. O primeiro, personagem tão intrigante quanto sua grafia, é o Professor Calvet, curador do museu municipal de Cosmópolis, que domina os segredos de antigas civilizações, e revive em si, o deus da justiça da esquecida Atlântida. Com roteiro do jornalista Percival de Souza, foi publicado pela editora Graúna em 1967, aproveitando a onda esotérica do movimento hippie e de obras como o disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, lançado naquele ano. Já o Homem-Fera tinha um visual semelhante ao do Pantera Negra, de Stan Lee e Jack Kirby, que surgiu em 1966, nos Estados Unidos, na revista do Quarteto Fantástico. Em sua identidade civil, o herói é Alfredo, um domador de circo que foi salvo do ataque de criminosos por Madina, sua pantera de estimação.

Como se pode constatar, embora alguns super-heróis brasileiros apresentassem conceitos bem criativos, a maioria era cópia descarada de personagens estrangeiros. Somando-se isso ao mau acabamento gráfico e artístico das revistas, é fácil concluir por que todos tiveram presença efêmera nas bancas.

Judoka, herói do milagre brasileiro
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O único bem-sucedido desse período foi Judoka, da EBAL, que estreou em 1969, na sétima edição da revista homônima (nas seis primeiras, publicou histórias de Judomaster, personagem obscuro da Charlton Comics). Em sua identidade “civil”, Judoka é Carlos, um jovem praticante de judô, que tem como mestre o sábio Minamoto. Ele e sua namorada, Lúcia, decidem usar suas habilidades marciais contra o crime. Ambos vestem uma máscara e um quimono estilizado com as cores verde e branco.

A revista, lançada em plena vigência do milagre econômico brasileiro, com o país crescendo a taxas médias de 10% ao ano, tinha um cunho patriótico, que procurava exaltar as virtudes do Brasil. Assim, a cada edição, os judocas viviam uma aventura num ponto diferente do país. A revista durou 52 números e ainda ganhou uma produção cinematográfica de baixo orçamento. O modelo Pedrinho Aguinaga e a atriz Elizângela encarnaram o casal de heróis na tela.

Meteoro e os heróis indies dos anos 1990

Meteoro, o super-herói adolescente

Meteoro, o super-herói adolescente

Um novo movimento de super-heróis teve início nos anos 1990. A partir de meados da década anterior, os quadrinhos passaram a ser vistos pela grande imprensa como produtos de alto valor literário, devido à publicação das chamadas graphic novels – revistas caprichadas graficamente e com temas maduros. O mercado editorial foi aquecido com muitos lançamentos e o surgimento de várias editoras de pequeno porte, e selos editoriais independentes.

Com a variedade de títulos e gêneros, revistas de super-heróis brasileiros voltaram a ser
lançadas. Entre 1991 e 1997 surgem vários heróis: Fantasticman, de Tony Fernandes, e Vingador Mascarado, de Seabra, em títulos diversos da editora Phenix. Meteoro, o super-herói adolescente, e Os Protetores, são os títulos de Roberto Guedes, pela Fire Comics. Os Semideuses, de Walter Junior e Ale Librandi, pelo Grupo Saga. Quebra-Queixo, de Marcelo Campos, nas páginas da revista Pau Brasil (editora Vidente); e UFO Team, de Marcelo Cassaro (Trama Editorial). Contudo, boa parte desse material esbarrava numa distribuição deficitária e nos altos custos gráficos, que impossibilitavam a continuidade das séries.

Com a chegada do novo milênio, o mercado editorial de uma maneira geral entrou em crise, devido à concorrência com a internet e jogos e aparelhos eletrônicos. As tiragens dos gibis caíram assustadoramente, mesmo entre os tradicionais personagens da Marvel, Disney e DC Comics. A última editora de grande porte a investir em super-heróis brasileiros foi a Escala, de São Paulo, com a revista Graphic Talents (2002), que a cada edição apresentava um personagem diferente. Os representantes heroicos foram Velta (Emir Ribeiro), Lobo-Guará (Carlos Henry), Dálgor (Dario Chaves) e Meteoro (Roberto Guedes).

Todavia, os gibis de super-heróis brasileiros continuam a ser produzidos no circuito alternativo. O editor José Salles lança regularmente pelo selo Júpiter II uma série de revistas, inclusive a de um resgatado Raio Negro, com HQs feitas por autores atuais. De Santa Catariana, Samicler Gonçalves edita a revista Cometa, totalmente colorida. Um grupo de autores de Curitiba viabiliza projetos diversos com o super-herói cômico O Gralha. Sandro Marcelo – atuante na cena cultural pernambucana –, publica a revista Conversor. Outro representante do Nordeste é JJ Marreiro, com sua personagem retrô Mulher-Estupenda. De São Paulo, vem o Almanaque Meteoro, de Roberto Guedes. Suas páginas abrigam também HQs de super-heróis clássicos, como Mylar e Capitão 7, além de artigos e entrevistas com personalidades do meio.

As tiragens dessas publicações são reduzidas e atendem um grupo seleto de leitores interessados. Por outro lado, os autores escapam do encalhe, podendo repor novos exemplares de acordo com a demanda. As novas técnicas de impressão, com preços mais acessíveis, ajudam, e muito, na profusão de mais e mais títulos. A distribuição é feita em lojas especializadas (comic shops) e bancas selecionadas dos grandes centros – notadamente, Rio e São Paulo. Sites, blogs e as redes ociais na internet acabam funcionando como veículo de divulgação e as vendas pelo correio se tornaram uma opção conveniente que atinge todos os cantos do território nacional. A grande saga do super-herói brasileiro continua, e não há indício de que cessará de existir.

Fonte: História Viva

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